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Pitch não é sobre falar bonito. É sobre fazer a ideia existir na cabeça de alguém

  • Foto do escritor: Laura Gurgel
    Laura Gurgel
  • 17 de ago.
  • 7 min de leitura

Existe uma frase que repito há anos em aulas, mentorias e programas de empreendedorismo: uma boa ideia em uma apresentação ruim é uma ideia ruim.


É uma afirmação meio cruel, eu sei. A ideia pode continuar tecnicamente maravilhosa. Pode ter meses de pesquisa, uma tecnologia espetacular, um time competente e um mercado gigantesco esperando por ela. Mas existe um pequeno problema: se ninguém entendeu tudo isso, para aquela audiência, naquele momento, nada disso existiu.


Talvez seja exatamente por isso que tanta gente entenda pitch errado. Pitch não é concurso de oratória, não é uma versão corporativa de show de talentos e definitivamente não é decorar um texto de três minutos, colocar meia dúzia de gráficos bonitos em uma tela e tentar parecer mais seguro do que realmente está.


Pitch é tradução!


É a capacidade de pegar algo que está complexo, espalhado e completamente óbvio dentro da sua própria cabeça e reconstruí-lo de uma forma que outra pessoa consiga entender. Mais do que entender, consiga perceber por que aquilo importa e por que deveria continuar prestando atenção.


Só que existe uma coisa importante aqui: antes de existir um bom pitch, precisa existir alguma coisa boa para contar. Você não resolve falta de validação com storytelling. Não resolve um problema mal definido com um slide bonito. Não resolve ausência de mercado colocando um TAM bilionário na tela. E definitivamente não resolve um modelo de negócios que ninguém entendeu, aumentando o tamanho da palavra “inovação”.


Isso porque um pitch bom não começa no PowerPoint, ele começa muito antes.


Começa quando alguém identifica um problema que realmente merece ser investigado. Depois conversa com pessoas, descobre que algumas das suas certezas estavam erradas, reformula hipóteses, testa, erra, muda, prototipa e começa a entender quem efetivamente usa aquela solução, quem paga, quanto estaria disposto a pagar, que alternativas já utiliza e por que abandonaria algo conhecido para experimentar alguma coisa nova.


Por isso, quando trabalho empreendedorismo, gosto de pensar a jornada quase como uma sequência inevitável: problema, pessoa, hipótese, solução, validação, modelo, evidências e, só então, pitch.


O pitch não deveria fabricar uma história, mas sim organizar uma história que o negócio já começou a construir.


Mas o outro extremo também existe. Há quem queira resolver tudo com storytelling e há quem chegue para apresentar uma ideia com 47 dados, 32 gráficos, oito funcionalidades, quatro patentes e a esperança de que a audiência seja gentil o suficiente para montar o quebra-cabeça sozinha. Mas não vai.


Informação não é narrativa. Uma boa apresentação precisa ter direção. Quando alguém assiste a um pitch, existe uma pergunta silenciosa acontecendo o tempo inteiro: “Por que eu deveria continuar prestando atenção nisso?”


É por isso que o começo importa tanto. O famoso hook não precisa ser uma performance mirabolante. Pode ser uma pergunta, um dado, uma contradição, uma situação reconhecível, uma história curta ou uma afirmação incômoda. O que ele precisa fazer é abrir uma porta.


Começar dizendo “boa tarde, meu nome é Fulano, sou CEO da startup XPTO e hoje vim apresentar…” sem uma afirmação de impacto ou um número relevante normalmente significa gastar segundos preciosos sem oferecer nenhuma razão concreta para que alguém queira descobrir o que vem depois.


Pitch é economia da atenção. E atenção é provavelmente um dos recursos mais escassos de qualquer ecossistema de inovação.


Quando falo em storytelling, também não estou dizendo que todo fundador precisa virar protagonista de uma Jornada do Herói, encontrar um mentor, enfrentar um dragão e retornar ao reino carregando uma solução SaaS. Storytelling, para mim, é muito mais simples: uma coisa precisa levar naturalmente à próxima.


Existe um problema e ele afeta determinadas pessoas. Hoje essas pessoas tentam resolvê-lo de determinada maneira, e essa alternativa é insuficiente por algumas razões. A partir disso, construímos uma solução, testamos determinadas hipóteses, aprendemos algumas coisas e desenhamos um modelo. Agora estamos aqui e queremos chegar ali.


Pronto! Existe uma narrativa, sem dragão, sem espada e sem TED Talk improvised. Porque storytelling não é enfeite, é arquitetura da informação.


E isso também ajuda a entender por que não existe um único pitch deck válido para qualquer situação. O pitch apresentado para um investidor não deveria ser exatamente o mesmo usado para convencer uma empresa a rodar um piloto, assim como um pitch de hackathon não é necessariamente igual ao de um DemoDay. Até porque uma apresentação para captar recursos pode enfatizar coisas diferentes daquela construída para conquistar um primeiro cliente.


A pergunta não é apenas “o que preciso colocar no meu pitch?”. A pergunta melhor é: quem está ouvindo


Apesar disso, alguns elementos quase sempre aparecem: a audiência precisa entender qual é o problema, quem o enfrenta, como ele é resolvido hoje e por que essa solução atual é insuficiente. Precisa entender o que você está propondo, por que sua solução é diferente das alternativas existentes e como o negócio funciona.


E aqui existe uma observação importante: concorrente não é apenas outra startup com um produto parecido. Concorrente é qualquer alternativa que dispute a mesma decisão do cliente, inclusive a opção de continuar fazendo exatamente o que ele já faz hoje.


Dizer que seu diferencial é “ser inovador”, “ter atendimento personalizado” ou “usar inteligência artificial” raramente ajuda. O seu diferencial começa a aparecer quando conseguimos responder com clareza por que alguém escolheria aquela solução diante das demais possibilidades.


O mesmo vale para o modelo de negócios: quem paga? Quanto paga? Com que frequência? Como o cliente chega? Quanto custa atendê-lo? Existe recorrência? O negócio consegue capturar parte do valor que promete gerar? O pitch não é apenas mostrar que alguém deseja uma solução. É mostrar que existe uma lógica por trás da empresa que pretende entregá-la.


Mas existe uma parte que, para mim, muda completamente a qualidade da conversa: evidência.


É quando o seu discurso começa a deixar de ser promessa.


Então pense que entrevistas realizadas, protótipos testados, primeiros clientes, receita, conversão, retenção, pilotos, cartas de intenção, resultados, aprendizados — tudo isso ajuda a separar uma hipótese interessante de uma hipótese que já começou a sobreviver ao contato com o mundo real.


E digo isso porque existe uma diferença gigantesca entre dizer “acreditamos que os clientes querem isso” e dizer “testamos com determinado público e descobrimos isso”.


A segunda frase pesa mais, não porque inovação seja uma competição para descobrir quem possui mais certezas. Pelo contrário! Empreender significa operar durante bastante tempo em meio a incertezas. Mas existe uma diferença entre admitir incerteza e transformar opinião em evidência.


Um empreendedor maduro não precisa fingir que sabe tudo. Precisa saber distinguir o que já conhece, o que acredita e o que ainda precisa descobrir. Essa distinção, aliás, é uma das coisas que mais observo em uma apresentação.


Quando assistimos a um pitch, estamos formalmente avaliando conteúdo, mas também lendo dezenas de sinais paralelos. A pessoa domina o próprio negócio? Consegue explicar algo complexo de maneira? Sabe administrar o tempo? Entende seus números? Escuta uma pergunta antes de responder? Consegue admitir que ainda não sabe determinada coisa? Defende a própria tese sem se tornar defensiva? O slide está ajudando a narrativa ou virou um teleprompter gigante?


É por isso que eu não gosto muito da separação absoluta entre conteúdo e forma. A forma altera o valor percebido do conteúdo. Você pode ter feito um trabalho excelente durante seis meses e transmitir a sensação de improviso em cinco minutos. É justo? Talvez não. Mas é real? Absolutamente.


E é justamente aí que entra uma tecnologia bastante subestimada chamada “treino”.


Quer melhorar radicalmente um pitch? Apresente. Grave. Assista. Sofra um pouquinho! Corte. Apresente novamente. Mostre para alguém que não conhece o negócio. Observe onde essa pessoa se perde. Refaça. Treine as perguntas difíceis. Treine sem slides. Treine com menos tempo do que você acha que terá. Treine até não precisar decorar.


Porque decorar palavras costuma ser perigoso. Basta alguém interromper, o tempo mudar ou um slide não aparecer para a apresentação inteira parecer um acidente ferroviário. E você não precisa memorizar cada frase, precisa dominar a lógica da história. Quando sabe onde está e para onde a narrativa precisa ir, consegue se adaptar. E adaptação é uma habilidade muito mais relevante para um empreendedor do que memória.





Existe ainda um ponto que parece banal, mas que sempre reforço em programas, desafios e bancas: leia os critérios de avaliação. Se você será avaliado em problema, inovação, modelo de negócios, impacto e capacidade de execução, sua apresentação precisa permitir que quem está do outro lado enxergue problema, inovação, modelo, impacto e execução. Não significa moldar artificialmente o negócio para agradar à banca. Significa entender o que aquela audiência precisa analisar e ajudá-la a encontrar essas respostas.


Afinal, comunicação também é empatia. 


O mesmo vale para o encerramento. Há excelentes pitches que terminam e deixam uma pergunta no ar: “Certo… e agora?”. Todo pitch precisa ter um destino. Você quer investimento? Um piloto? Um cliente? Uma conexão? Um parceiro? Mentoria? Aprovação para a próxima fase? Um pitch sem pedido claro vira trailer de um filme que ninguém sabe onde assistir.


Talvez, para mim, a parte mais interessante dessa discussão esteja justamente no papel dos hubs de inovação, aceleradoras, universidades e programas de empreendedorismo. Em muitos lugares, pitch ainda é tratado como a grande cerimônia de encerramento. Existe um workshop, uma mentoria, um DemoDay, um palco, algumas fotografias, aplausos e acabou. Mas podemos fazer muito mais com ele: o pitch pode funcionar como um teste de estresse do negócio.


Quando alguém não consegue explicar claramente o problema, talvez o problema ainda não esteja claro. Ou, quando não consegue dizer quem paga, talvez o modelo ainda precise amadurecer. Quando não consegue demonstrar diferencial, talvez a concorrência não tenha sido analisada de verdade. Quando não existem evidências, talvez tenhamos hipóteses demais e validação de menos. E, quando não existe um pedido claro, talvez nem o próprio time saiba qual deveria ser seu próximo passo. E, nesse sentido, ensinar alguém a construir um pitch não significa apenas ensinar apresentação. Significa ajudá-lo a organizar pensamento.


E isso muda completamente o papel de um DemoDay dentro de um ecossistema.


Um DemoDay não deveria ser uma formatura! Deveria ser um gate.


O projeto deveria sair dali com algum encaminhamento: avançar, testar novamente, buscar um piloto, conectar-se a uma empresa, captar, pivotar ou mesmo parar. Sim, acredite, parar também pode ser uma excelente decisão.


Ecossistemas maduros não existem para manter todas as ideias vivas artificialmente. Existem para aumentar a qualidade das decisões sobre quais ideias merecem receber mais tempo, talento, dinheiro e energia. É por isso que, no final do dia, pitch nunca foi apenas sobre falar bonito.


É sobre conseguir tornar compreensível aquilo que você está construindo. Não é esconder dúvidas, mas mostrar que você sabe quais dúvidas importam. Não é despejar informação, mas selecionar aquilo que ajuda alguém a tomar uma decisão. Não é transformar uma hipótese em certeza, mas demonstrar por que aquela hipótese merece o próximo experimento.


E talvez seja justamente por isso que essa habilidade seja tão importante, muito além do universo das startups.


Nós estamos sempre tentando mobilizar alguém em torno de alguma coisa: uma ideia, um projeto, uma pesquisa, uma mudança, uma oportunidade ou um futuro possível. No fundo, fazemos pitches o tempo inteiro; a diferença é que algumas pessoas apenas contam aquilo que estão fazendo.


Mas outras conseguem fazer alguém pensar: “Isso faz sentido. Quero saber o que acontece depois.”


E é exatamente aí que uma apresentação deixa de ser apenas uma apresentação. E começa a abrir portas.

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